Bons álbuns do rock nacional através das décadas: 1970

Bons álbuns do rock nacional através das décadas 1970

Dando continuidade à preciosa lista de grandes pérolas nacionais através das décadas, chegou a vez dos anos 70, período marcado pelo aparecimento de grandes bandas de hard rock, progressivas e psicodélicas, com claras influências de elementos musicais tupiniquins, além da forte presença da soul music aos bons moldes Motown & cia.

Assim que acabei a lista me dei conta do quão rica é a nossa (boa) música, especialmente nesta década, e que não deixamos nada a desejar (em termos musicais) a grandes nomes gringos. Dê uma conferida e morra de orgulho (assim como eu) do que nossos bons músicos produziram!

tim maia_1970Tim Maia – Tim Maia (1970): Abrimos a lista com o disco debut de ninguém menos que o grande mestre Tim Maia, com um valioso registro de 1970 que traz grandes pérolas do soul nacional como Coroné Antônio Bento, Eu Amo Você, Primavera (Vai Chuva), Risos e a belíssima e clássica Azul da Cor do Mar, composição feita pelo próprio num momento de solidão, frustração profissional e carência e que se tornaria um de seus maiores sucessos.

O álbum é até hoje uma verdadeira referência musical por conter em suas melodias e arranjos uma qualidade excepcional, que resulta num instrumental fiel, limpo e deliciosamente suingado.

Sem dúvida o melhor lançamento daquele promissor início de década, disparado, de acordo com esta que vos escreve.

 

som imagSom Imaginário – Som Imaginário (1970): Já andei falando do Som Imaginário rapidamente aqui e vale lembrar que os caras começaram como banda de apoio do Milton Nascimento e acabaram por trilhar seu próprio caminho, devido à sua alta competência musical. Pois muito que bem, em 1970 eles decidiram lançar seu primeiro álbum, o homônio trabalho que traz em 10 faixas um rock puramente psicodélico que passeia pelo progressivo.

Com instrumental psicodélico e experimental, arranjos criativos,  letras libertárias e sensíveis e os vocais primorosos de Zé Rodrix, o disco conquista à primeira audição os apaixonados pelo estilo, como esta que humildemente vos escreve.

Entre os destaques as incríveis Morse, Super God, Make Believe Waltz, Hey Man e Poison.

Disco forte, carismático e altamente recomendável!

***

Módulo 1000 - (1970) Não Fale Com ParedesMódulo 1000 – Não Fale Com Paredes (1972) – Muito se engana  quem pensa que o rock progressivo nacional se resume única e exclusivamente a Mutantes. A década de 70 guarda muita coisa boa em relação à bandas brasileiras e o Módulo 1000 é uma destas pérolas. “Não Fale Com Paredes” – filho único de uma das grandes representantes do progressivo brasileiro – é um dos maiores clássicos do gênero, reconhecido como tal até mesmo fora do país. Seguindo uma linha que passeava entre o hard rock pesadaço e o psicodélico numa linha floydiana, o registro ambicioso do quarteto carioca é carregado de riffs engenhosos, viradas potentes e instrumental criativo. Apresenta claras influências que vão desde os gigantes do progressivo, Pink Floyd, ao peso de Sabbath e Zeppelin.

Entre os destaques desta verdadeira raridade estão as faixas Turpe Est Sine Crine Caput, Não Fale Com Paredes, Espêlho, Salve-se Quem Puder e Animália.

 

secos e molhados_cademeuwhiskeySecos e Molhados – Secos e Molhados (1973): No ano de 1973, em pleno auge da Ditadura Militar, foi lançado um disco que ao mesmo tempo em que mesclava elementos da música tradicional brasileira e portuguesa, trazia certo peso e pitadas psicodélicas, aliado à letras expressivas. A capa do álbum em sí já é um verdadeiro clássico e apresenta o visual dos integrantes todo trabalhado na maquiagem, ao melhor estilo glam.

Assim surgia o disco debut da banda  Secos e Molhados, uma das maiores preciosidades produzidas por aqui. O inovador registro traz em suas 13 faixas uma verdadeira festa instrumental que passeia sem o menor rodeio por estilos diversos, indo desde o baião, o pop e o jazz, até um rock and roll mais psicodélico e que traz como forte destaque a interpretação graciosa de Ney Matogrosso. As clássicas Sangue Latino, O Vira, Amor, Assim Assado, Rosa de Hiroshima e  Fala, valem muito o registro.

 

som-imag-matanca-24Som Imaginário – Matança do Porco (1973): Pense num álbum que de cara já começa com uma faixa instrumental em que a guitarra se destaca brilhantemente e te leva à uma viagem que termina guiada por um piano encantador. Assim começa Matança do Porco, um dos discos mais interessantes da década setentista, conceitual e puramente instrumental. Bem diferente do já citado álbum de estreia dos caras, de 1970.

O registro da banda Som Imaginário flerta abertamente com a música erudita e o jazz. As nove faixas resultam numa bela mistura de componentes da música popular brasileira como a bossa nova (mas sem ser chato) e de quebra traz elementos do progressivo.

Ouvir este registro é, sem dúvida, fazer uma longa viagem e se deixar levar pelas ondas do maior grau de sensibilidade que a música pode alcançar.

Entre os destaques as faixas: Armina, A Nº 2 e A Matança do Porco.

 

raulseixas-gitafrenteRaul Seixas – Gita (1974): Pensar em rock and roll nacional setentista sem pensar em Raul Seixas é algo praticamente inimaginável! Dentre os grandes trabalhos lançados por Raulzito nos anos 70 destaco Gita, um grande álbum que traz além de suas composições irreverentes muita poesia, filosofia e religião, regadas a bons riffs misturados a diversos gêneros musicais, criando um instrumental extremamente genuíno, ao melhor estilo setentista nacional.

Grande parte das composições tiveram a parceria de Paulo Coelho, amigo de longa data do músico e sua influência “filosófica” pode ser conferida em algumas faixas como Medo da Chuva, Água Viva e Sociedade Alternativa, que criticava a sociedade da época e sugestionava a experiência de se viver em uma nova organização, livre das leis criadas pelos homens, uma bela provocação à ditadura pela qual passava o país.

Mas o grande presente do álbum é mesmo Gita, faixa-título da obra, uma canção poética e filosófica, baseada no texto hindu Bhagavad-Gita (Canção de Deus), que canta sobre a existência de Krishna. Além de uma letra belamente complexa, o instrumental épico traz a participação de 62 músicos, o que resultou em um dos grandes hinos do rock brasileiro.

 

ave_sangriaAve Sangria – Ave Sangria (1974): O único álbum de estúdio da banda traz uma deliciosa mistura do rock psicodélico e experimental próprios da década de 70, passeando graciosamente por elementos da música nordestina rural. Um show de musicalidade e variedade instrumental. Letras poéticas e irreverentes  se misturam à elementos da música brasileira, deixando de maneira generosa que a precisão da guitarra e a força da batera cheguem aos poucos e contrastem harmoniosamente entre sí. Deste épico álbum vale destacar as faixas Lá Fora, Hei!Man – que traz a forte presença do instrumental nordestino mesclado a elementos psicodélicos –  Seu Valdir, Corpo em Chamas, Geórgia a Carniceira e uma das faixas mais fascinantes do álbum, a progressiva Sob o Sol de Satã, que mostra o alto  nível dos caras.

 

tim-maia-racional-vol11Tim Maia – Racional (1974): Fruto de uma fase viajandona de Tim Maia, quando o músico embarcou nas ideias da seita chamada “Cultura Racional”, que pregava uma teoria relacionada a seres extraterrenos, Racional é um dos registros mais geniais da década de 70.

Vale ressaltar com êxito o grande trabalho instrumental feito neste álbum, resultado de um flerte bem sucedido entre o funk e soul de primeiríssima linha, com influências claras de Marvin Gaye e cia. Se por um lado as letras deste registro parecem confusas e sem muito sentido, vale atentar ao vocal extremamente limpo e forte de um Tim Maia que por conta de sua “nova filosofia de vida” havia largado as drogas, o álcool e a má alimentação. Entre as grandes faixas deste volume estão Imunização Racional, Bom Senso, Rational Culture e Ela Partiu.

Destaque para os wah-wah´s das guitas, as linhas poderosas de baixo e os backing vocals, tudo no melhor estilo Motown.

 

hqdefaultBlack Zé – Só Para os Loucos, Só para os Raros (1975): Este clássico – e visionário, diga-se de passagem – disco de 1975, traz 11 faixas de um rico instrumental que mesclava o rock a elementos do tropicalismo com uma pitada de blues e letras absolutamente criativas.

Qualquer um que ouvir este álbum vai jurar que se trata de um trabalho dos anos 80, auge do rock brazuca, tamanho clima oitentista que ele traz, tanto nos vocais como no instrumental, impressão que se concretiza nas faixas  Só Para os Loucos (que ganhou regravação da lenda Ventania em 2000), O Dia Virá e o delicioso blues Cilada, com riffs encantadores. Deste belíssimo trabalho ainda destaco as faixas Onde É, que mais uma vez mostra o engenhoso trabalho nas guitas; Lanterna (um som bastante psicodélico, viagem total junto à letra!) e a instrumental Dueto Rio-Bahia, que traz um trabalho muito bem elaborado de cozinha e guitarras, misturado a um certo swuing brasileiro.

É um disco precioso, daqueles que você deve degustar faixa a faixa. Uma verdadeira raridade nacional!

 

Casa_das_M_quinas_1976_Casa_de_Rock_1Casa das Máquinas – Casa de Rock (1976): Fechando a lista, Casa de Rock, terceiro e último álbum lançado pela banda paulista Casa das Máquinas.  O disco traz fortes elementos do hard rock, com breves pitadas do progressivo e psicodélico. Na minha humilde opinião é o primeiro álbum que pode ser considerado do hard rock nacional.

A história deste elepê é bem interessante, já que ele contou com participações do produtor e do técnico de som em uma das faixas, “Certo Sim, Seu Errado”, tendo estes tocado batera e baixo, respectivamente.

O instrumental é extremamente carismático, com riffs ágeis, viradas potentes e baixo groovado. Destaque para a performance “selvagem e intensa” do vocalista Simbas, em seu primeiro trabalho com a banda.

Entre as principais e imperdíveis faixas deste primoroso álbum estão Casa de Rock, Jogue Tudo pra Cabeça, Certo Sim Seu Errado, Mania de Ser (Pecados Banais), Essa é a Vida e Eu Queria Ser.

 

 

Postado ao som do ábum Casa de Rock (1976), Casa das Máquinas.

Sobre rosegomes

Rose,Tia Rose, Desert Rose ou só Desert, como quiser. Estudante de jornalismo, amante de boa música e boa bebida. Traz no currículo a pretensão de ser um Fábio Massari de saias. Contato: cademeuwhiskey@gmail.com
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Uma resposta para Bons álbuns do rock nacional através das décadas: 1970

  1. Otto Rodrigo Schneider disse:

    Ótimas dicas sonoras.
    Recomendo acompanhamento de cerveja.

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